A intensificação dos eventos climáticos extremos vem ampliando os desafios para projetos de energia e infraestrutura em escala global. Secas prolongadas, enchentes severas e tempestades mais frequentes afetam diretamente a viabilidade técnica, econômica e financeira de ativos essenciais ao desenvolvimento e à transição energética.
O cenário climático e seus impactos sobre projetos de longo prazo
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) tem repetidamente apontado riscos climáticos intensificados, destacando que as crises climáticas, ambiental e de poluição são interligadas e se agravam, ameaçando ecossistemas, saúde e economias até 2050 se nada mudar.
Em 2024, desastres climáticos causaram mais de US$ 328 bilhões em danos e milhares de mortes em todo o mundo. Essas cifras incluem danos físicos, interrupções operacionais e custos indiretos associados a desastres naturais, ressaltando a magnitude dos impactos econômicos e sociais diante da nova dinâmica climática.
Projetos de infraestrutura e energia, por sua própria natureza, são investimentos de longo prazo e altamente expostos a riscos físicos. Hidrelétricas enfrentam redução de capacidade devido à escassez hídrica; parques eólicos e solares lidam com interrupções operacionais causadas por eventos extremos; sistemas de transporte e logística sofrem danos recorrentes em regiões vulneráveis a enchentes e deslizamentos.
Além dos danos físicos, cresce a dificuldade de previsibilidade climática. Modelos tradicionais baseados em séries históricas, como as curvas de recorrência, já não refletem adequadamente a nova realidade climática. Essa incerteza crescente eleva o custo de capital, afeta decisões de investimento e exige abordagens mais sofisticadas de avaliação de risco.
Infraestrutura, transição energética e o desafio da adaptação
A agenda da transição energética avança em paralelo à necessidade de adaptação climática. Não se trata apenas de ampliar a oferta de energia limpa, mas de garantir que esses projetos sejam resilientes desde a fase de concepção.
Ferramentas analíticas baseadas em big data, inteligência artificial e sensoriamento remoto têm sido incorporadas ao planejamento de projetos para permitir uma leitura mais precisa da exposição climática. No entanto, sua aplicação exige coordenação entre desenvolvedores, governos, financiadores e demais agentes do ecossistema.
Um ecossistema de respostas: políticas públicas, capital e gestão de riscos
A construção de resiliência climática envolve políticas públicas consistentes, marcos regulatórios claros, financiamento adequado e instrumentos de gestão de risco capazes de absorver choques cada vez mais frequentes.
Em debates que antecederam a COP30 abordou-se que a adaptação precisa ser tratada como agenda econômica e estratégica. Investidores e financiadores demandam maior transparência sobre riscos climáticos, enquanto governos buscam mecanismos para evitar que eventos extremos comprometam projetos essenciais ao desenvolvimento sustentável.
O papel dos mecanismos de transferência e gestão de risco
Nesse ecossistema mais amplo, os mecanismos de transferência e gestão de risco desempenham um papel relevante como habilitadores da resiliência, e não como soluções isoladas. Ao apoiar a estabilidade financeira de projetos e reduzir a volatilidade associada a eventos extremos, esses instrumentos contribuem para a continuidade de investimentos em infraestrutura e energia.
A frequência e a severidade de eventos climáticos extremos, como tempestades severas de caráter convectivo, inundações e incêndios florestais, estão em trajetória ascendente, pressionando os mecanismos de transferência de risco, como o mercado de seguros e resseguros.
Relatórios recentes destacam que as perdas seguradas por catástrofes naturais mantêm-se acima de US$ 100 bilhões por ano, com projeções apontando que esses valores podem atingir até US$ 145 bilhões em 2025, refletindo a crescente pressão sobre os mecanismos de transferência de risco diante da intensificação climática.
Iniciativas como a Climate Risk Assessment Tool (Flood), apresentadas pela CNseg no contexto da COP30, demonstram como tecnologia e inteligência climática podem apoiar avaliações mais realistas de risco e fortalecer a cooperação entre setor público e privado.
Empresas como a WTW atuam nesse campo ao contribuir com análises técnicas, modelagem de riscos e avaliação atuarial, apoiando projetos na compreensão de sua exposição climática e na construção de estratégias integradas de adaptação.
A resiliência climática deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a ocupar o centro das decisões econômicas e de infraestrutura. Em um cenário de incerteza crescente, a adaptação exige visão sistêmica, planejamento de longo prazo e colaboração entre diferentes atores.
Mais do que respostas pontuais, o desafio está em estruturar um ecossistema capaz de sustentar a transição energética e o desenvolvimento de infraestrutura resiliente, mesmo diante de um clima cada vez mais imprevisível.
Referências de dados incluídos
Perdas econômicas globais de eventos climáticos em 2024: US$ 328 bi, com 167 mi de pessoas afetadas e 43% seguradas (relatório da OECD sobre riscos climáticos)
Perdas seguradas por catástrofes naturais (acima de US$ 100 bi/ano) e projeções de até US$ 145 bi em 2025 (relatórios do mercado global de resseguros)