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Fraude interna e engenharia social estão no centro do risco corporativo

Março 31, 2026

Hoje, o maior risco não é apenas o ataque externo: é a combinação entre acesso interno, falhas de processo e engenharia social

Fraude corporativa não é um problema novo. A questão está na forma como ela acontece. Os eventos mais críticos já não dependem de invasões sofisticadas ou golpes cinematográficos. Em muitos casos, a fraude começa com algo simples como um e-mail, uma alteração de dados bancários ou uma urgência aparentemente “normal” no fluxo de pagamentos.

Especialistas da WTW analisaram sinistros reportados por clientes entre 2007 e março de 2025, reunindo uma base com mais de 1.155 notificações de crime comercial.

Nesse conjunto, o maior sinistro individual chegou a US$ 55 milhões, com média de US$ 885 mil e mediana de US$ 192 mil. Os números reforçam uma conclusão prática: o crime comercial é, cada vez mais, um risco operacional e um risco de governança.

  • Fraude interna e externa têm frequência parecida

    Fraudes internas e externas aparecem em proporções semelhantes em frequência. No entanto, quando se observa o impacto financeiro, o cenário muda: as perdas internas tendem a ser mais elevadas.

    A explicação é clara: o fraudador interno conhece os controles, sabe onde estão as exceções e entende o “jeito real” como as rotinas ocorrem. Isso permite sustentar a fraude por mais tempo.


  • O custo da fraude interna é maior porque ela dura mais

    O relatório detalha as diferenças entre perdas internas e externas e os números são taxativos:
    • Custo médio: US$ 1,28 milhão (interno) × US$ 595 mil (externo)
    • Maior perda única: US$ 55 milhões (interno) × US$ 13,4 milhões (externo)
    • Duração média do evento: 744 dias (interno) × 61 dias (externo)
    • Tempo médio de descoberta: 62 dias (interno) × 21 dias (externo)

    A fraude interna, portanto, não é necessariamente mais frequente. Ela é mais persistente.

  • Casos públicos mostram crescimento em silêncio

    A história corporativa recente está repleta de exemplos de fraudes construídas ao longo do tempo, apoiadas por distorções contábeis, governança frágil e baixa capacidade de detecção.

    Casos como Enron, WorldCom e Wirecard não foram apenas escândalos financeiros; tornaram-se símbolos de um risco estrutural: quando os controles falham, a fraude ganha escala, se normaliza internamente e passa a operar como parte do processo.

    No Brasil, o caso da Lojas Americanas (2023) reforça como distorções contábeis podem escalar rapidamente para uma crise corporativa de grandes proporções. Foram reveladas inconsistências bilionárias nos registros financeiros, utilizadas para inflar a posição de caixa e mascarar resultados, o que levou a perdas superiores a R$ 20 bilhões e à recuperação judicial da companhia.

    Situações dessa natureza podem envolver fraude corporativa estruturada, incluindo manipulação de registros contábeis e falsificação de documentos. Dependendo da configuração do evento, apólices de seguro contra crime corporativo podem cobrir perdas financeiras diretamente causadas por atos fraudulentos internos, desde que as condições contratuais e limites de cobertura sejam atendidas.

    A lição é objetiva: o risco mais caro costuma ser aquele que se torna rotina.

  • Engenharia social: a fraude mais moderna é humana

    Se a fraude interna está ligada ao acesso, a engenharia social representa o risco do processo.

    O relatório aponta a engenharia social como um dos tipos mais prevalentes de fraude globalmente, associada a:

    • Falsificação de faturas de fornecedores
    • Instruções fraudulentas de pagamento
    • Personificação de executivos
    • Desvio de pagamentos e alteração de dados bancários

    Em muitos casos, os fraudadores comprometem e-mails reais de relações comerciais e monitoram o tráfego por meses, aprendendo tom, linguagem e padrões de resposta.


  • Quando o risco também atinge o sistema financeiro

    O crescimento dos casos de fraude não se limita ao ambiente corporativo tradicional. Episódios recentes envolvendo instituições financeiras e bancos de menor porte no Brasil também trouxeram o tema da fraude corporativa para o centro do debate regulatório e de mercado.

O volume de fraudes bancárias no país mais que triplicou entre 2019 e 2021, alcançando 4,1 milhões de ocorrências, com prejuízos estimados em R$ 2,5 bilhões apenas em 2022.

Esse cenário levou o Banco Central a editar a Resolução Conjunta nº 6, que reforça mecanismos de prevenção, monitoramento e compartilhamento de informações entre instituições financeiras para mitigar fraudes.

Quanto maior a incidência desses eventos, maior também a necessidade de mecanismos complementares de proteção, entre eles seguros corporativos específicos para riscos de crime comercial.


  • O problema do controle que não é seguido

    Um dos achados mais importantes do relatório é que parte significativa das perdas ocorre mesmo quando há políticas e procedimentos estabelecidos.

    Entre os eventos mais recorrentes em fraudes corporativas estão fraude interna, roubo, desvio de recursos, manipulação de registros contábeis e falsificação de documentos.

    Entre as causas mais recorrentes estão:

    • Controles em vigor que não são seguidos
    • Erro humano
    • Falta de controles adequados
    • Falhas de verificação

    O relatório também destaca que a verificação verbal com fornecedores, clientes ou internamente é uma das formas mais eficazes de mitigação, desde que um cuidado seja seguido: os dados usados na validação não devem vir do e-mail, pois esse canal pode estar comprometido. O protocolo precisa ser independente.


  • Limites importam

    Além da prevenção, o relatório traz um alerta relevante sobre financiamento e cobertura:
    • 87% da perda é coberta pela apólice
    • 17% excedem o limite ou sublimite
    • 8% dos pagamentos não são cobertos (principalmente por falta de comprovação, perdas indiretas e notificação tardia)

    Esse ponto é especialmente crítico na engenharia social, que costuma ter sublimites inferiores. Ou seja, o risco não é apenas “ter seguro”, mas ter limites compatíveis com o tamanho do problema.


  • O que as empresas podem fazer

    A resposta mais eficaz combina processo, cultura e governança. Entre as medidas de maior efetividade estão:
  • Segregação de funções em pagamentos, cadastro e aprovação
  • Validação independente para mudanças de dados bancários
  • Monitoramento de exceções e transações atípicas
  • Revisão periódica de fornecedores e contas
  • Trilha de auditoria robusta
  • Canal de denúncia com proteção e resposta rápida
  • Treinamentos práticos com simulações de engenharia social
  • Fraude corporativa é risco estratégico

    Em um cenário de digitalização acelerada, complexidade operacional e aumento da sofisticação dos fraudadores, o risco de fraude corporativa tende a se tornar cada vez mais relevante para empresas e instituições financeiras.

    Crime comercial não é apenas uma ameaça externa; ele é, cada vez mais, um risco de processo, cultura e governança.

    Fraudes internas custam mais porque duram mais. Engenharia social continua relevante porque se adapta ao comportamento humano. Em ambos os casos, a empresa perde tempo, reputação e confiança.

    Com base em dados históricos de sinistros, o caminho mais sólido é unir prevenção operacional, governança robusta e revisão estratégica de limites, sublimites e adequação de cobertura.